O diretor enquanto gestor e as diferentes pressões e dilemas da prestação de contas na escola pública

Palavras-chave: Gestão escolar, Diretor, Gerencialismo, Prestação de contas

Resumo

Em Portugal, as escolas públicas dos ensinos básico e secundário e os jardins de infância públicos foram, na sua maioria, integrados nos designados Agrupamentos de Escolas. Cada um desses agrupamentos, bem como as escolas que não foram integradas, regem-se por um modelo de administração no qual se sobressaem dois órgãos fundamentais: o Diretor, que é o órgão (unipessoal) de gestão, e o Conselho Geral, que é o órgão (colegial) de direção. Nesse último órgão participam os representantes de diferentes atores e interesses da Comunidade Educativa (internos e externos). O Diretor presta contas pelas suas decisões, quer ao Conselho Geral, quer, sobretudo, ao Ministério da Educação e outros serviços da burocracia do Estado com poder fiscalizador e hierárquico. Mas não apenas. Com efeito, em um contexto em que também é crescente o escrutínio ou controle das famílias e dos stakeholders sobre as escolas e agrupamentos de escolas, sobretudo em relação a resultados acadêmicos mensuráveis, as pressões que se exercem sobre o diretor colocam-no, ainda mais, perante formas diferenciadas (e, não raras vezes, contraditórias) de accountability (isto é, processos ambivalentes e heterogêneos de avaliação, prestação de contas e responsabilização). O foco neste artigo, no entanto, incide no pilar da prestação de contas.

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Biografia do Autor

Almerindo Janela Afonso, Universidade do Minho

Sociólogo, Doutor em Sociologia da Educação, Professor Associado da Universidade do Minho, Pesquisador do Centro de Investigação em Educação (CIEd), Membro da Comissão Diretiva do Doutoramento em Ciências da Educação.

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Publicado
06-12-2018
Como Citar
AFONSO, A. J. O diretor enquanto gestor e as diferentes pressões e dilemas da prestação de contas na escola pública. Roteiro, v. 43, n. esp, p. 327-344, 6 dez. 2018.